As flores na horta são vistas como um ornamento: bonitas, mas acessórias. É exatamente o contrário. Uma horta sem flores prescinde dos seus melhores aliados — e o mecanismo é mais preciso do que se pensa.
Desempenham quatro funções distintas, que não são asseguradas pelas mesmas espécies nem nas mesmas épocas. Compreender quais são permite escolher em vez de semear ao acaso.
Função 1 — alimentar os auxiliares adultos
É a função mais poderosa e aquela que mais frequentemente descuramos, porque ignoramos um facto simples.
As joaninhas, os sirfídeos e as crisopas só consomem pulgões na fase larvar. Os adultos alimentam-se de néctar e pólen. Sem flores por perto, não se instalam nem põem ovos — por isso, nunca terá larvas, independentemente da quantidade de pulgões que tenha.
Uma larva de sirfídeo consome várias centenas de pulgões durante o seu desenvolvimento. Atrair a fêmea é, portanto, o investimento mais rentável da horta.
As famílias mais eficazes
- As Apiáceas — endro, coentros, funcho, cenoura em flor, milefólio. As suas umbelas planas proporcionam um acesso fácil ao néctar para os sirfídeos, cuja tromba é curta. É um critério mecânico, não uma preferência.
- As Asteráceas — calêndula, cosmos, centáurea, camomila, equinácea. Capítulos planos e floração prolongada.
- As Boragináceas — borragem, facélia. Néctar muito abundante e floração durante vários meses.
Deixar alguns pés de coentros ou de salsa florir é uma das melhores decisões na horta — e não custa nada, uma vez que estas plantas acabam por florir de qualquer forma.
Função 2 — atrair os polinizadores
Sem polinização, não há abóboras, curgetes, melões nem morangos bem formados. Os frutos-hortícolas dependem diretamente dos insetos — com exceção das plantas autógamas, como o tomateiro ou o feijoeiro, que se desenrascam sozinhas.
O problema não é tanto atrair os polinizadores, mas retê-los. Uma curgete floresce durante seis semanas; se o seu jardim não oferecer nada antes nem depois, as abelhas não têm qualquer razão para se instalar.
As melhores plantas melíferas para semear: facélia (uma das mais visitadas), borragem, trevo-branco, alfazema, girassol, papoila.
Veja a nossa coleção de plantas melíferas.
Função 3 — capturar e perturbar
As plantas-armadilha
Planta-se deliberadamente uma espécie mais atrativa do que a cultura a proteger. A capuchinha atrai massivamente os pulgões-negros, que deixam de lado as favas e as curgetes vizinhas.
É importante compreender: uma planta-armadilha não é repelente, é sacrificada. É preciso aceitar vê-la coberta de pulgões — é sinal de que está a funcionar. Não a trate e, sobretudo, não a arranque: libertaria a colónia para o resto do canteiro. Plante-a na bordadura, a montante do vento dominante, nunca no meio da cultura.
A perturbação olfativa
Muitos insetos detetam a sua planta hospedeira pelo odor. Uma flor ou uma aromática de odor intenso, intercalada, disfarça esse sinal: cravo-túnico, calêndula, alfazema, erva-gateira.
O caso dos cravos-túnicos e dos nemátodes
É real, mas muitas vezes mal compreendido: o efeito deve-se a substâncias emitidas pelas raízes e pressupõe uma cobertura densa do solo durante uma estação inteira. Um canteiro cultivado com cravos-túnicos como adubo verde produz um resultado mensurável; três exemplares ornamentais na bordadura, não. Mantêm, no entanto, o seu interesse para os auxiliares.
Função 4 — cobrir, nutrir, comer
Algumas flores também trabalham para o solo ou para o prato — é este o princípio permacultural da multifuncionalidade.
- Cobertura do solo e adubos verdes floridos — facélia, trevo-branco, linho. Florescem e protegem o solo. Além disso, os trevos fixam azoto.
- Flores comestíveis — capuchinha (flores e botões), borragem (sabor iodado), calêndula, papoila, cosmos. Consulte Flores comestíveis: sementeira, colheita e utilização.
- Flores que se auto-semeiam — calêndula, borragem, papoila, centáurea. Semeadas uma vez, regressam todos os anos sem intervenção. É uma excelente relação entre esforço e resultado.
Estender a floração de março a outubro
Este é o ponto decisivo, e aquele em que mais falhamos: uma explosão de flores em junho serve de pouco se o jardim estiver despido em abril e em setembro. Os auxiliares precisam de um recurso contínuo para se instalarem de forma duradoura, em vez de apenas passarem pelo local.
| Período | Espécies que assumem a continuidade |
|---|---|
| Março – abril | Colza, mostarda, camomila, plantas aromáticas vivazes que voltam a crescer |
| Maio – junho | Facélia, borragem, papoila, centáurea, linho, trevo |
| Julho – agosto | Girassol, cosmos, calêndula, alfazema, equinácea, capuchinha |
| Setembro – outubro | Cosmos tardio, calêndula, milefólio, facélia ressemeada no verão, plantas aromáticas deixadas florescer |
Dois truques para assegurar as extremidades: semeie a facélia várias vezes entre maio e agosto e não limpe tudo no outono — os caules ocos e os capítulos secos abrigam os auxiliares durante o inverno.
Onde as colocar
- Na bordadura do canteiro — a solução mais simples, que aproveita o efeito de orla: é no limite entre dois meios que a vida é mais abundante.
- Intercaladas nas linhas — a cada dois ou três metros. É o que produz o melhor efeito olfativo, pois atua a curta distância.
- Em faixas floridas — um canteiro inteiro dedicado, em rotação com as culturas. Útil se tiver espaço.
- Numa zona selvagem — um canto não cuidado, com algumas flores deixadas formar sementes. É o reservatório a partir do qual os auxiliares recolonizam o espaço após cada perturbação.
Uma ordem de grandeza frequentemente citada: procurar que cerca de um décimo da área seja ocupado por flores. Num espaço de 50 m² de horta, cinco metros quadrados bem distribuídos já alteram claramente o equilíbrio.
O que deve evitar
- Variedades com flores dobradas. As pétalas suplementares substituem os estames: não produzem pólen nem néctar acessível. São magníficas e inúteis. Prefira sempre as formas simples.
- Limpar tudo no outono. Elimina os abrigos de invernada precisamente quando são necessários.
- Uma única espécie em massa. Cinco espécies com florações desfasadas valem mais do que uma faixa monoespecífica espetacular.
- Plantar a capuchinha no meio das culturas. Ela atrai pulgões: o seu lugar é na bordadura.
- Tratar, mesmo em agricultura biológica. Os tratamentos inseticidas não distinguem um pulgão de uma larva de joaninha.
Perguntas frequentes
As flores competem com os legumes?
Marginalmente, se forem bem colocadas. A maioria das flores anuais tem um enraizamento superficial e necessidades modestas. O benefício na polinização e na regulação das pragas ultrapassa largamente a área que ocupam.
Quanto tempo demora até se notar um efeito?
A polinização, logo na primeira estação. A regulação das pragas demora dois a três anos: é o tempo necessário para as populações de auxiliares se instalarem e encontrarem, no local, o que precisam para passar o inverno.
Resulta numa varanda?
Sim, e mais depressa do que se pensa. Algumas capuchinhas e um vaso de borragem atraem sirfídeos e abelhas logo no primeiro ano, mesmo num andar. Consulte Horta na varanda.
Devo comprar misturas já preparadas?
Dão uma ajuda, mas a sua floração concentra-se frequentemente no verão e a sua composição raramente é adequada à sua região. Combinar quatro ou cinco espécies com florações desfasadas dá um resultado muito melhor.
É possível colher as sementes destas flores?
Sim, e é particularmente simples no caso da calêndula, da borragem, da papoila e do centáurea, que, aliás, se auto-semeiam. Consulte Como conservar as suas sementes.
A reter
As flores não são a decoração da horta; são a sua infraestrutura: alimentam os organismos que regulam as pragas e polinizam os seus legumes-fruto. Há apenas um critério a cumprir: uma floração contínua de março a outubro, com flores simples. O resto virá por acréscimo.
Para saber mais
- As melhores associações de legumes na horta
- Flores comestíveis: sementeira, colheita e utilização
- Plantas repelentes: quais semear?
- Semear adubos verdes
Descubra as nossas plantas melíferas e as nossas sementes de flores — todas reprodutíveis, para semear uma vez e conservar.




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